A dolorosa incompreensão da depressão

A dolorosa incompreensão da depressão

Imagine-se sozinho, em um corredor tão comprido quanto o maior que você já cruzou até hoje e tão acinzentado e escuro que nada parece ter vida ali dentro. Você está ao fundo, preso por seus braços e pernas em anilhas tão pesadas quanto o seu próprio corpo. O seu maior desejo é percorrer este longo caminho e cruzar a estreita saída que, por vezes, quase fica invisível aos olhos. Você percebe que, de alguma forma, ao longe, muitas pessoas estão olhando você. Algumas estão torcendo, outras acusando de ser fraco, por não conseguir arrastar estes “pequenos pesos”, mas ninguém está tentando te alcançar para pegar à sua mão e ajudar a aliviar seu sofrimento nesta desgastante jornada…

Agora você já sabe como é o cenário que uma pessoa com depressão enfrenta todos os dias.

A depressão é uma doença que afeta mais de 350 milhões de pessoas no mundo, mas ainda é muito subjugada e incompreendida por grande parte das pessoas, inclusive, até mesmo, por muitos profissionais da área.

O estado depressivo provoca alterações químicas no cérebro da pessoa, o que faz transcender a sua condição muito além da sua mera vontade, provocando uma situação semelhante como quando você está sob o efeito de alguma droga ou medicamento pesado. Seus sentidos se alteram, sua perspectiva sobre o mundo muda e seus pensamentos ficam fora do seu controle, porém com o enorme agravante de uma ótica sombria e solitária, com uma dor, tortuosamente constante, que começa no ponto mais profundo ponto da sua alma e se estende a todos ao seu redor.

Os efeitos são extremamente devastadores e das formas mais variadas possíveis. Como descrito em depoimento especialmente feito para esta postagem:

Nenhum sofrimento vivido por mim até hoje, nem de longe, se compara a toda a dor sentida em minha fase depressiva. Todos [nós] temos um período onde nos sentimos sozinhos mesmo rodeado das pessoas que, claramente, nos amam, mas, a solidão depressiva, mesmo que apenas um pouco semelhante, ela nos atinge com uma potência tão grande que só será compreendida por quem já passou por esta situação. E, como se não bastasse essa dor que nos acomete 24 horas por dia, sete dias por semana, junto a todas as outras consequências físicas e psicológicas, ainda temos que lidar com o enfraquecimento de nossa saúde física. Eu desenvolvi gastrite, deformações em glândulas, minha imunidade baixou consideravelmente e, qualquer lesão que fosse, era recuperada a muito custo fora outras lesões que apareciam por conta de toda essa sobrecarga emocional.

E, fora todas estas consequências mentais e físicas do depressivo, ele ainda sofre com as consequências sociais ocasionadas pela incompreensão da doença e até mesmo a discriminação que, muitas vezes, pode partir até mesmo de quem a pessoa mais espera o apoio e auxílio. Terminando, assim, por sacramentar a sua tragédia. Como podemos ver neste outro depoimento de uma pessoa que sofre com o comportamento da própria mãe em relação à sua doença:

Geralmente, ela briga comigo porque acha que eu não me ajudo a sair dessa situação, como se fosse fácil de uma hora pra outra fazer algo que mude isso. Todo mundo quer mudar e não se sentir mais dessa forma, mas você se sente tão desanimada para as coisas que fica muito difícil fazer qualquer mínimo esforço. Ela não entende como é difícil dar um passo pra fora disso. Como se eu quisesse estar nesse estado de tristeza.

Para auxiliar na diminuição deste sentimento de incompreensão, a OMS (Organização Mundial de Saúde) criou um vídeo que busca demonstrar a perspectiva de quem está sofrendo deste mal:

Vencer esta doença que afeta diretamente o estado emocional requer diversos cuidados, mas, principalmente, o apoio compreensivo de quem está ao lado do depressivo. E se você pensa que é desgastante para você conviver com uma pessoa assim, então nem tente imaginar como é viver na pele dela.