A conquista sem vitória

A conquista sem vitória

Você se propõe a participar de uma maratona, você irá largar junto a uma outra multidão de atletas com o único objetivo de cruzar a linha de chegada 42km adiante. É uma longa e ardua corrida, você quer ser campeão tanto quanto os outros e não poupa esforços pra isso. Sua motivação está a mil, mesmo com suas pernas doendo, seus ombros já não aguentando o peso dos seus braços mas você segue a persistir, dá todo o seu gás, queima toda a sua energia, passa por todos ignorando completamente os outros corredores até que, enfim, você cruza a chega à frente de todos. Seu sentimento é de completo êxtase, nada no mundo poderia superar o seu sentimento de satisfação por ter cumprido este objetivo, exceto pelo sentimento de orgulho que domina você ao subir no pódio. Aquela cena dos vencedores jogando champagne uns nos outros, a modelo se aproximando com aquele cheque imenso que mal cabe em seus braços se eternizará em sua mente.

Porém, o instante seguinte irrompe com todos esse orgulho e felicidade. Você se olha em cima daquele pequeno quadrado do pódio e, mesmo ocupando a primeira colocação, uma inquietação, semelhante a quando você esquece algo, toma conta de sua mente e, então, você começa a relembrar toda a corrida que acabou de acontecer, buscando descobrir o que você poderia ter deixado no caminho.

Você se posta, novamente no ponto de partida e, mentalmente, recomeça a sua corrida. Você largou no meio da multidão, muitas pessoas à sua frente e nas laterais, então você acabou esbarrando, empurrando e tomando várias outras ações para cortar à frente delas e seguir rumo a sua conquista. Durante o trajeto você passou por muitas pessoas, e as considerou todas como suas adversárias, as ignorando completamente para que pudesse seguir à frente mas, em um flash, você começa a recordar a face de cada uma delas e percebe que, muitas destas pessoas eram seus amigos e familiares. Eles estavam ali presentes para apoiar, incentivar e acompanhar você em sua corrida, mas sua preocupação com a vitória era tão grande que você seguiu sem ao menos ouvir quaisquer das palavras que eles direcionaram a você. Em outra súbita lembrança você se da conta que, muitas das pessoas que você passou, estavam machucadas, se lesionaram no caminho e não conseguiam, nem mesmo, seguir para a margem da pista para não atrapalhar a corrida mas você, em um gesto de pura motivação e demostração de força, pulou, literalmente, por cima delas, e vibrou com a passagem realizada. Afinal, menos uma pessoa a sua frente. E não bastasse o sentimento de culpa que começa a tomar você, de repente, uma dor súbita arrebata seu pé direito, você olha para ele e o vê cheio de sangue, para e só então, lembrar daquela pedra que encontrou no meio do caminho que, tamanha era a sua vontade de seguir, que acabou chutando ela em um grito de auto afirmação de que “você veio aqui para vencer”.

Sua consciência retorna para cima do pódio, as pessoas ainda o aplaudem e ovacionam sua conquista mas o sabor dela já não é o mesmo. O cheque, o troféu e toda a atenção voltada para você já estão saturadas de um sentimento de egoísmo e você percebe que muito do que realmente lhe é valoroso não se encontra presente ali, naquele pódio, e você já não se sente merecedor daquela conquista.

É claro que não queremos e nem nascemos para perder sempre. Todos nós, todos os dias, lutamos para sermos vencedores. Mas a forma como se conquista a vitória é quem dirá se toda a sua luta realmente valeu a pena ou se, esse tempo todo, você estava se iludindo com algo que você colocou à frente, nomeou aquilo como sucesso, e correu insanamente atrás desta conquista deixando o que realmente lhe era mais valioso para trás.

Talvez, uma vitória só tenha gosto de vitória se você mantiver seus valores, família e amigos. Talvez, a vida seja mais que vitórias e derrotas. Talvez, a verdadeira vitória e o real “sucesso na vida” venha da colaboração com o mundo e não do simples ato de chegar à frente.